Memória de Minhas Putas Tristes

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Ele fez 90 anos. Era solteiro, pobre, feio e jornalista medíocre.

Mas queria comemorar a ousadia representada por sua idade.
Ligou para uma cafetina, e pediu uma virgem. À esta altura, eu já estava lendo de má vontade.
Como assim? Pedir uma virgem para comemorar os 90 anos???? Esse pensamento rançoso e machista ao extremo, me incomoda. Mas......pensei cá com meus botões: dê um desconto, é o contexto histórico onde a ação se passa, o personagem é idoso e provavelmente tem esta mentalidade......e continuei a leitura.

A cafetina tenta demovê-lo da ideia, até pela escassez do produto no mercado, mas ele é inflexível: quer uma virgem. Suas aventuras amorosas sempre foram em bordéis e com prostitutas, e anotava cuidadosamente os nomes e as datas dos seus encontros em um caderninho. O caderninho possuía mais de 500 nomes. Pausa. Mais má vontade de minha parte.....já beirando a indignação.

A cafetina retoma contato com ele e diz: arrumei!!!!!! Ela tem 14 anos! Ele aceitou. O livro parou para mim aí. Neste ponto. Li até o final, mas não houve 1 parágrafo que Gabriel Garcia Marquez tenha escrito em Memória de Minhas Putas Tristes, que salvasse a sensação de repúdio que senti ao ler.

Não passa pela minha cabeça ler um livro sobre pedofilia. Não consegui gostar. Não achei uma cantata ao amor. Não achei que ele descobriu o amor no fim da vida. Não achei NADA. Só achei ele um velho safado, machista e pedófilo.

Bom....o ato não se concretiza, porque Delgadina, a musa do anti-herói, está sempre dormindo quando ele chega. E ele se apaixona por seu corpo nu, pelos odores desprendidos dele, por dividir a cama com ela e velar seu sono....e a relação deles é assim: ele acordado e ela dormindo (!).

Eu não sou ninguém para criticar o Prêmio Nobel de Literatura, mas honestamente, apesar de eu já ter lido Garcia Marquez e adorado (Amor nos Tempos do Cólera), esse livro me desagradou profundamente.

Preciso argumentar ao meu favor, que em minha pós-graduação em Saúde Pública, minha monografia foi sobre os sinais e sintomas da violência doméstica contra a criança e o adolescente. Discorri sobre as modalidades de abuso físico, sexual, psicológico e negligência. Não SUPORTO eventos relacionados ao assunto sem sentir um profundo asco. Está no meu sangue, fui treinada para isto. Não dá para fazer uma resenha, sem me deixar levar pelo que sou.

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