O convite prometia: feijoada com samba de raiz, sábado à tarde em um barzinho bem legal de um bairro de São Paulo.
Porém, a convidada era ninguém mais, ninguém menos que esta que vos escreve: La Sorcière. E La Sorcière consegue complicar até mesmo uma feijoada com samba.
Ok. Com que roupa se vai à uma feijoada com samba? Bom, eu coloquei um vestido curto, depois um comprido, depois um de alça, tirei todos, coloquei uma calça, depois uma bermuda, depois um shorts e minha mãe disse que se eu diminuísse ainda mais minha indumentária acabaria indo de biquíni. O que não era uma opção. Tirei o shorts, coloquei um macação, depois uma saia estilo indiano (!) e acabei com o vestido curto do início deste parágrafo.
Que horas você almoça? A suburbana aqui almoça ao meio dia entre a correria de um emprego e outro. Minhas amigas combinaram encontrar-se às 14:00h. Nem preciso dizer que eu estava varada de fome e que como pobre é uma merda, não comi nada antes para "aproveitar bem" o almoço. Como pontualidade não faz parte do dicionário de ninguém, às 15:30h, uma La Sorcière praticamente em estado de inanição profunda, dá entrada no barzinho descolado da Vila Leopoldina.
Eu já contei para vocês que eu tenho uma queda por tudo o que não presta??? Pois é. Comi todos os torresmos, os pés-de-porco, rabos, orelhas e línguas do meu prato e do prato de todos os presentes na mesa. Nessa altura, já queria voltar para a casa, me jogar na cama e dormir feito aposentada o resto da tarde.
Mas o samba tinha começado.
Eu não contei outro detalhe crucial para vocês: eu não tenho samba no pé. Nem no pé, nem em nenhum outro lugar do corpo. Não adianta. Eu me concentro, eu tento, mas dou uns pulinhos, chacoalho de um lado para o outro... um espetáculo deprimente de se ver. PORÉM, nada que uma ou duas cervejas não deem conta. E eu já tinha ultrapassado essa quota já fazia um tempo. Ultrapassado muito. Então, sambava feito uma passista alucinada de escola de samba de bairro.
Às 18:00h eu já não sentia os pés. Mas como o garçom trocava o balde de cervejas com uma eficiência invejável e eu e minhas fiéis amigas as consumiam com um ritmo mais invejável ainda, pensei: quem precisa de pés??? Nessa altura, já tinha arrancado as sandálias, afinal, o samba era de raiz, não era???
Às 19:00h eu queria ir embora. Eu estava ensopada de suor, descalça, com os pés sujos, cabelo desgrenhado e sem maquiagem. Devia ter ido embora. Mas chegou mais gente no grupo. Gente animada, que não tinha se entupido de feijoada feito eu, nem bebido feito uma profissional como eu e que estava doida para sambar, coisa que à esta altura, eu já não estava mais, tinha sambado o suficiente por esta e pelas próximas encarnações.
O grupo de sambistas foi substituído por outro, a cerveja foi reposta, mas La Sorcière continuava a mesma. Apenas mais alcoolizada e pensando em como daria conta de dirigir de volta para casa, pois eu já não tinha pés, lembram-se??? Nem pés, nem juízo. E dá-lhe cerveja.
Os casais começaram a dançar e eu desesperei: e se algum doido me convidasse para dançar??? Eu já estava pensando em uma resposta educada, porém firme, quando um deus grego começou a me olhar. Tenho um fraco por deuses gregos. Disfarçadamente tentei enfiar as sandálias de volta aos pés dormentes, mas foi quase um parto, meus pés estavam o dobro do tamanho normal e estavam imundooooooos. Fui para o banheiro com uma escova, um batom e tentei dar um jeito no visual. Enfiei um pé na pia (abafa o caso) para dar uma lavada e tive que pedir para uma das minhas amigas me ajudar a tirar, porque fiquei entalada e quase caí de cima do salto.
Minhas amigas são maravilhosas. Muito. Me resgataram generosamente após o acidente com a Scania e nunca me deixam só. Me dão conselhos preciosos e sábios. Mas estavam todas mais bêbadas do que eu, senão teriam me dito: vai para casa, Alexandra, a-go-ra. Mas não. Disseram: se prepara que hoje vai render!!!!!
Voltei para a mesa acreditando piamente no veredicto proferido no banheiro, enquanto uma delas se abaixava para fechar a fivela da minha sandália (porque se eu abaixasse, provavelmente ia vomitar toda a cerveja insana que consumi). E não deu outra: o deus grego veio me chamar para dançar um sambinha. E eu fui. Sem sentir os pés, sem me equilibrar direito, sem raciocinar e o pior: sem nunca ter tido uma aula de dança de salão. Pisei no pé do cara, derrubei uma cadeira, bati a bunda e o cotovelo em todos ao redor e fui devolvida à mesa rapidinho, sem direito à bis.
Termino esta pequena crônica de La Sorcière dizendo que saí do bar com aquela cambada de doidas que se dizem minhas amigas, à 01:20 da madrugada. Fiquei 10 HORAS no samba. Dormi hoje o dia todo. Estou em estado terminal. Acordei duas vezes para tomar Doril. Bebi uns 4 litros de água. Estou arruinada dos quadris para baixo. Dói tudo. Não terminei de ler o livro da resenha de segunda e precisava enrolar vocês de alguma maneira. Espero ter sido bem sucedida. Amanhã vou trabalhar de havaianas.
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