Eu dormia feito uma princesa (afinal, estava ao lado de um príncipe!) quando, de madrugada, ouço uma gritaria infernal. Era minha mãe, enlouquecida, dizendo que tinha "gente" tentando entrar em casa. Ou seja: tinha ladrão no quintal.
Eu pulei da cama de um lado, o Príncipe Eleito do outro e fiquei rodando feito barata tonta no quarto sem saber o que fazer. Por uma roupa seria uma boa ideia, para começar. Teria sido fácil, se minhas pernas colaborassem. Parecia que eu era feita de gelatina, gelatina fora da geladeira por sinal. Nada de músculos ou ossos. Gelatina mesmo. Enfiei qualquer coisa pela cabeça e quando dei conta, my lover estava do lado de fora de casa. Pense que "o lado de fora da casa" significa: "onde estavam os assaltantes"!
Desesperei: meu pai berrava no andar de baixo, minha mãe gritava na escada, o lover xingava no quintal e o Leonardo roncava tranquilo, alheio ao estardalhaço que corria solto em casa.
Bem, eu tinha uma tarefa até que simples: devia ligar para a guarita de segurança (que diga-se de passagem, é na esquina de casa), porém, havia um fator complicante: eu não tremia. Eu chacoalhava. E gaguejava. E quase babava de pavor. Minhas pernas travaram e eu tentava discar e apertava todos os números errados. Quando consegui falar com o segurança, eu não lembrava o endereço de casa, nem o número da casa. Não lembrava nem meu nome.
Meu pai tinha tido um rompante de valentia e fechado a janela da sala (por onde eles tentaram invadir a casa) na mão do assaltante. E não contente, agarrou o revólver do desgraçado e tentou desarmá-lo, enquanto berrava: Ofélia, traz minha espingarda que vou matar esse filho-da-putaaaaaaaaa! Os meliantes saltaram o muro para fora de casa. A segurança chegou. Com holofotes portáteis que iluminavam tudo, armados e inesperadamente gentis e educados. E felizmente, controlados. Andaram pela casa toda. Pelos quintais, pelo jardim e pomar. E nada.
A história acabou com a chegada da polícia (também gentil, educada e armada até os dentes), um tombo na lavanderia e uma topada na quina do sofá por esta atrapalhada que vos escreve. Fraturei outro dedo do pé. Meu pai machucou três dedos da mão. Minha mãe ficou rouca. O Léo dormiu o tempo todo. Eu tenho a sensação que não vou dormir nunca mais.
PS: As Crônicas de La Sorcière são baseadas em fatos reais. Porém, eu invento, aumento, minto um pouco e me divirto de montão. Mas devo admitir que desta vez, não foi nem um pouco engraçado...
PS2: Os defensores dos direitos humanos que me desculpem, mas lugar de bandido É NA CADEIA. Vendo o sol nascer quadrado.
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