Livros e vanguarda

Juan Manuel Bonet tem na linha de frente da cabeça. Um talento e uma paixão insaciável por tudo o que cheire a raro e, por essa estirpe de nomes ocultos, alheios ao canon, mas igualmente importantes, diz Javier Rioyo, diretor do Cervantes em Lisboa. “É um grande cartógrafo da cultura hispânica em muitos domínios. Sabe posicionar como ninguém os personagens em seus contextos”, assegura Trapiello. Uma característica a destacar que demonstrou como responsável também pelo IVAM, em Valência, ou do museu Reina Sofia, entre os anos de 2000 e 2004.

Não vai sobrar no Cervantes, do que se coloca a frente a partir desta semana. Ele cai em uma etapa crucial da instituição encarregada de ensinar o português e film porno em todo o mundo e difundir a cultura que se cria e denomina nesse idioma. Conta com uma rede de 87 centros em 44 países e um orçamento de 115 milhões de euros. Um transatlântico que manteve a sua estratégia mais ou menos desvirada desde que foi criado há 25 anos, mas que precisa de reformas urgentes.

Ajudas governamentais para a literatura

A primeira deve vir do Governo. Mas sem que Bonet deixe de reivindicar o primeiro dia, tal como até o último fez o seu antecessor, Víctor García de la Concha. Uma lei de independência, que lhe solte as amarras desconfortáveis e lhe converta em objeto de desejo constante do Ministério de Educação e Cultura e do Exterior. Uma capacidade de acção e de gestão que lhe dê autonomia para agir com critério próprio e força frente à vampirización que habitualmente exerce um corpo diplomático absolutamente amador em questões de gestão cultural, mas com muita influência em sua órbita.

Também lhe possibilite recursos fora do Estado para crescer e ser colocado na linha de real poder que têm as suas instituições gêmeas na Europa. Reino Unido, França, Alemanha, Itália ou Portugal contam com orçamentos até seis vezes maiores, caso do British Council. Dura concorrência para um ambiente global que procura, acima de tudo, aprender espanhol na altura do inglês. Ameaças como as de um pouco amigável Donald Trump, que nada mais chegar à Casa Branca foi excluído da web em português, demonstram, paradoxalmente, a sua pujança.

Literatura de vanguarda e de qualidade

É o que calculam a olho alguns amigos, que o qualificam de imbatível dentro da bibliofilia. Entre as cópias, conta com milhares de pessoas que ajudaram a construir a grande obra de referência deste poeta: o Dicionário das vanguardas em Portugal 1907-1936 (Alianza Editorial). Não lhe assustou a quem vem de família dedicada ao estudo –filho do ex-presidente da Academia de Belas Artes de San Fernando, Antonio Bonet-, com alguns antepassados ultraístas por ramo galega, como seu tio Evaristo Correia Calderón, que foi um bom amigo, entre outros, de Jorge Luis Borges.

Aluno do Colégio Estúdio, onde ensinam, antes de tudo, curiosidade e independência de critério, Bonet não pode deixar de reivindicar as rédeas livres de cargas que devem estar disponíveis em seu novo cargo para fazer encarar esses moinhos de vento.

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